24/07/11

Vivian Maier - a descoberta de uma grande fotógrafa



Imagem: Self Portrait, 1955, Vivian Maier/(c) Maloof Collection

Se uníssemos numa só mulher a magia de Mary Poppins, o olhar curioso sobre o mundo de Amélie Poulain e alguma dose da excentricidade de Frida Kahlo, provavelmente o resultado seria uma mulher plural como Vivian Maier.

Vivian Maier nasceu em Nova Iorque, em 1926. Filha de uma francesa e de um austríaco, passou alguns anos em França, retornando aos EUA definitivamente em 1951. Viveu em Nova Iorque por algum tempo e, após esse período, mudou-se para Chicago, onde passou o resto da sua vida trabalhando como ama.

Até aqui isto poderia ser uma história comum, como milhares que existem por aí, mas, além do talento para cuidar de crianças (segundo as famílias para quem trabalhou, ela era tão especial quanto Mary Poppins), Vivian possuía um olhar muito pessoal para a fotografia.


Imagem: New York, NY, 1955, Viviane Maier/(c) Maloof Collection

Durante todo o tempo em que trabalhou como ama, e quem sabe até mesmo antes disso, ela fotografou a vida nas ruas. As suas imagens mostram pessoas de todas as camadas da sociedade, de diversas faixas etárias e em várias situações. As fotografias ilustram principalmente a sociedade americana das décadas de 50 e 60. Imagens de senhoras de classe mais abastada passeando calmamente pelas ruas, mendigos dormindo nas ruas e crianças brincando formam um retrato da vida da época.

Mas não foi apenas a sociedade americana que a artista retratou: um dia Maier decidiu, segundo o relato da família para quem ela trabalhava à época, colocar uma substituta em seu lugar e passar seis meses viajando pelo mundo. O resultado disso são fotografias tiradas em Los Angeles, Manila, Bangkok, Taiwan, Vietname, Egipto, Beijing, Itália, França, Argentina e Nova Iorque.

Boa parte das fotografias reveladas até agora são das décadas de 1950 ou 60, mas sabe-se que existem ainda muitas fotografias a serem reveladas que foram captadas nos anos posteriores.
Contudo, apesar de todos os anos que passou fazendo fotografia, ninguém conhecia o seu trabalho, nem mesmo as pessoas para quem ela trabalhou. Isso porque Maier era extremamente reservada na sua vida pessoal. Nunca mostrou sequer uma fotografia para alguém e centenas de rolos de filmes continuaram sem ser revelados, ou seja, nem ela mesma viu como as imagens ficaram. Tudo isto só mudou quando, em 2007, os seus pertences foram leiloados, por não ter liquidado algumas dívidas.


Imagem: May 16, 1957, Vivian Maier/(c) Maloof Collection

John Maloof, à época o co-autor de um livro sobre um bairro de Chicago, pesquisava imagens do local e foi ao leilão com a intenção de comprar algumas fotografias que pudessem ajudar no seu trabalho. Nesse evento, comprou uma caixa com 30.000 negativos nos quais não havia nenhum indício de quem fosse o autor. Mas logo percebeu que essas imagens não iriam ajuda-lo na pesquisa e deixou-as guardadas, até que a sua curiosidade o levou a deter um olhar mais atento sobre elas.

John percebeu que as fotografias eram muito boas, que o autor daquelas imagens possuía um olhar diferenciado e decidiu comprar outros negativos. No meio desses negativos e rolos de filme encontrou uma referência ao nome da autora, até então desconhecida. Fez algumas pesquisas e não encontrou nenhum resultado sobre ela. Mas, em 2009, uma nova busca pelo nome da ama revelou na necrologia de um jornal local, o relato do seu falecimento poucos dias antes da data da pesquisa.

Diante desse novo resultado, John pôde pesquisar mais sobre a vida de Vivian, entrou em contacto com famílias para quem ela trabalhou e criou um blog para divulgar as fotografias. Além do blog, o projecto inclui a publicação de um livro com as imagens da fotógrafa e a realização de um documentário sobre ela.

Muitos aspectos da vida de Maier ainda continuam obscuros. Ela era uma mulher muito reservada. As famílias que a empregaram relatam que ela nunca telefonava e que eles não conheceram ninguém que tivesse algum tipo de relação com ela. Sobre a sua personalidade todos concordaram que ela era um tanto excêntrica. Era uma anti-católica, feminista, socialista e crítica de cinema. Aprendeu inglês indo a teatros, mas o seu inglês tinha um forte acento francês. Vestia-se diferente das mulheres da sua época, usando casacos e sapatos masculinos, além de um grande chapéu. E o acessório permanente que usava era a câmara pendurada ao pescoço.
Existe a dúvida sobre o que Vivian Maier pensaria do projecto que envolve as suas fotografias. Muitas pessoas argumentam que ela mesma não faria isso - então, quem sabe seja uma invasão da privacidade à qual ela era tão apegada.
Isso nunca saberemos. O que nos resta é ficar à espera para que nas centenas de fotos que ainda serão reveladas possamos continuar a ver o mundo através do olhar peculiar dessa mulher. Fonte: Obvious.

Podem visitar e apreciar o grande trabalho desta fotógrafa em www.vivianmaier.com.

~ 7 comentários: ~

mfc says:
at: 24 julho, 2011 15:46 disse...

Fiquei convencidíssimo!

F3lixP says:
at: 24 julho, 2011 18:29 disse...

À algum tempo também me debruçei sobre quem foi e o que resta de Vivian Maier no meu blog. É fenomenal o trabalho que nos deixou. ;) Belo post.

João Farinha says:
at: 25 julho, 2011 14:21 disse...

Não conhecia mas agora quero conhecer melhor a obra desta grande fotografa. Obrigado, mais uma vez!

Helder Ferreira says:
at: 25 julho, 2011 18:50 disse...

Já conhecia a história e fico maravilhado com o que ela nos deixou. Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos. ;-)

ANRAFERA says:
at: 25 julho, 2011 18:54 disse...

Gracias por esta interesante entrada.
Estupedas tomas y excelente B/N.
Saludos.
Ramón

lifeontheviewfinder says:
at: 26 julho, 2011 01:19 disse...

Já conhecia a história, uma fotógrafa absolutamente incrível e um pequeno amargo de boca por nunca ter sido reconhecida pelo seu trabalho. Para mim está lá em cima junto do Cartier-Bresson e do Robert Frank a compararem momentos decisivos.

Michèle Dassy says:
at: 08 agosto, 2011 15:02 disse...

I discovered her in a photography museum. She was fantastic.

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