23/06/11

O misterioso álbum de fotografias nazi



Imagem: Tony Cenicola/The New York Times

Era uma história misteriosa e sem respostas mas uma leitora alemã desvendou o segredo. Apareceu em Nova Iorque um álbum com mais de 200 fotografias, nunca antes vistas. Nelas aparece tanto Hitler, como as vítimas do seu regime nazi. Não se sabia quem era o seu autor nem o seu proprietário, mas através das imagens, percebia-se que o fotógrafo teve um grande acesso aos dois lados do conflito. O “The New York Times” teve acesso ao álbum e publicou a história com o objectivo não só de dar a conhecer estas imagens inéditas do regime nazi, como também de despertar a atenção dos estudiosos da II Guerra Mundial, de forma a que estes pudessem ajudar a resolver o mistério. As fotografias a preto e branco mostram que o fotografo sabia muito bem o que estava a fazer, não era um amador, mas estaria a fazer um trabalho pessoal ou para Hitler?
A particularidade deste álbum não é apenas o facto de ter permanecido em segredo durante tantos anos, mas sim o facto de reunir tanto soldados nazis como as suas vítimas, todas elas registadas de muito perto.
Segundo a investigação do jornal norte-americano, as fotografias agora descobertas podem ser de um momento chave do conflito, nomeadamente quando se iniciou a invasão da extinta União Soviética.
Numa das páginas do álbum, pode ser visto um prisioneiro, no que parece ser um campo de concentração em Minsk (Bielorrússia) por volta de 1941, muito magro e coberto por uma manta, ao lado de outra imagem na qual aparece um grupo de prisioneiros com a Estrela de David pintada sobre a roupa.
Adolf Hitler aparece em quatro páginas do livro, rodeado de militares. O “The New York Times” destaca uma fotografia do líder nazi, sentado numa estação de comboios à espera do então regente da Hungria Miklós Horthy. Esta imagem é o exemplo claro da proximidade entre o misterioso fotógrafo e Hitler.
O álbum de 24 páginas, sem identificação ou legendas nas imagens que permitam dar mais pistas, estava agora na posse de um empresário de 72 anos que trabalha no sector da moda. Pouco mais se sabe, o homem prefere manter o anonimato, apenas explicando que foi uma pessoa que trabalhou para ele que lhe deu o álbum. Este por sua vez terá recebido de um velho cidadão alemão. O objectivo do empresário é agora perceber a origem das fotos, o seu valor e vendê-las, para combater a situação económica desfavorável em que vive. “Preocupava-me que caíssem nas mãos erradas. Sempre tive consciência que tinha um pedaço da história em meu poder”, disse o homem ao mesmo jornal, explicando que vive um momento de grande dificuldade.
Para Judith Cohen, directora da colecção de fotografia do Museu do Holocausto, nos Estados Unidos, este álbum é único “pela qualidade das fotografias”. “O fotógrafo era claramente um especialista e sabia bem o que estava a fazer, por isso provavelmente fazia parte do comité de propaganda do Partido Nazi.”
O apelo que o “The New York Times” fez aos leitores para se descobrir o autor das fotografias inéditas chegou à Alemanha e em pouco tempo foi resolvido.
O fotógrafo chama-se Franz Krieger, foi um fotojornalista austríaco e morreu em 1993. A conclusão é de uma historiadora alemã Harriet Scharnberg, que, depois de ter visto a notícia no site alemão Spiegel, enviou um email ao “The New York Times”.
“As fotografias, pelo menos a maior parte delas, foram tiradas pelo fotógrafo Franz Krieger (1914-1993). Krieger trabalhou como fotojornalista em Salzburgo, Áustria. No verão de 1941, ele foi a Minsk como membro da Reichs-Autozug Deutschland (uma formação politica do regime nazi). Em Minsk, ele tirou fotografias dos prisioneiros de guerra soviéticos e visitou um bairro judeu e fotografou as pessoas pobres que lá estavam. Quando voltava para Berlim, tirou fotografias do encontro de Hitler com Horthy em Marienburg”, escreveu a historiadora, explicando que está agora a tirar um doutoramento sobre a propaganda no regime nazi.
Harriet Scharnberg contou ainda que ao longo da sua especialização trabalhou nos arquivos fotográficos do memorial do campo de concentração, Neuengamme, e no Instituto de Pesquisa Social de Hamburgo.
A alemã explicou que quando viu as fotografias publicadas no “The New York Times” reconheceu-as imediatamente porque já as conhecia. Quando nos seus estudos procurava mais informações sobre Minsk, a historiadora encontrou um livro de 2008 com o nome “The Salzburg Press Photographer Franz Krieger (1914-1933): Photojournalism in the Shadow of Nazi Propaganda and War”, de Peter F. Kramml, e que mostra exactamente muitas destas imagens. Fonte: Público.

~ 3 comentários: ~

mfc says:
at: 23 junho, 2011 16:58 disse...

Um acervo notável para os historiadores!
....e para os amantes da fotografia!

Gonçalo T. Almeida says:
at: 23 junho, 2011 22:08 disse...

Grande notícia comparável à descoberta das "novas" fotos do Robert Capa.

IRIS says:
at: 24 junho, 2011 18:02 disse...

fantástico (no que de irreversível e incontornável tem este capítulo da história da humanidade).
é também um prazer esta faceta informativa do teu blogue (pena às vezes o tempo ser tão pouco para lhe dar toda atenção merecida)

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